Parentalidade Socioafetiva e Multiparentalidade: Reconhecimento Legal e Efeitos Jurídicos no Brasil
A evolução do conceito de família no Direito brasileiro permitiu o reconhecimento de novas formas de filiação, com destaque para a parentalidade socioafetiva e a possibilidade de multiparentalidade. Tais institutos representam avanços significativos na proteção dos vínculos afetivos, reconhecendo juridicamente relações construídas na convivência, no cuidado e no afeto, mesmo na ausência de vínculo biológico.
Este artigo explora o reconhecimento legal da parentalidade socioafetiva, seus efeitos jurídicos, os critérios exigidos para sua formalização e o papel das instituições judiciais na preservação do melhor interesse da criança e do adolescente.
O que é parentalidade socioafetiva e como ela transformou o conceito tradicional de filiação no Direito brasileiro?
A parentalidade socioafetiva é a relação de filiação constituída não por laços genéticos, mas pela convivência contínua, afeto recíproco e comportamento público de pai/mãe e filho(a). Trata-se de uma construção jurídica fundamentada nos princípios da dignidade da pessoa humana, da afetividade e do melhor interesse do menor.
Esse conceito transformou a filiação no Direito de Família ao permitir o reconhecimento da função parental desempenhada por pessoas que assumiram o papel de pai ou mãe na vida de uma criança, mesmo sem laço sanguíneo. Assim, o vínculo de afeto e convivência passou a ter força jurídica, conferindo direitos e deveres recíprocos entre as partes.
Como o afeto pode gerar vínculo jurídico entre pais e filhos mesmo sem laço biológico?
O afeto, quando consolidado em relações estáveis, públicas e contínuas, pode ser reconhecido juridicamente como elemento constitutivo da filiação. O ordenamento jurídico brasileiro, especialmente após a promulgação da Constituição Federal de 1988, passou a valorizar os vínculos afetivos na definição das estruturas familiares.
Tribunais superiores e a doutrina majoritária entendem que a parentalidade deve ser reconhecida quando se verifica a chamada posse do estado de filho, ou seja, quando a pessoa é tratada como filha pelo suposto pai ou mãe, perante a sociedade, com dedicação, carinho e cuidado, configurando a realidade fática da relação parental.
Quais são os critérios legais para o reconhecimento da multiparentalidade no ordenamento jurídico brasileiro?
A multiparentalidade é o reconhecimento jurídico da existência de mais de dois pais ou mães em relação à mesma pessoa. Essa possibilidade foi consolidada no ordenamento brasileiro com base em decisões do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça, que interpretaram a Constituição sob a ótica da afetividade e do melhor interesse do filho.
Os critérios jurídicos para o reconhecimento da multiparentalidade incluem:
- Comprovação da posse do estado de filho com o pai ou mãe socioafetivo;
- Convivência estável, contínua e pública com esse genitor;
- Interesse da criança ou adolescente no reconhecimento da relação;
- Ausência de conflito insuperável com a filiação biológica;
- Avaliação favorável do Ministério Público e homologação judicial (nos casos judiciais).
A parentalidade socioafetiva pode coexistir com a parentalidade biológica? O que dizem as decisões dos tribunais?
Sim. O ordenamento jurídico brasileiro admite a coexistência da parentalidade biológica e da socioafetiva. Isso significa que uma pessoa pode ter, simultaneamente, um pai biológico e um pai socioafetivo — ou uma mãe biológica e uma mãe socioafetiva — todos com os mesmos direitos e obrigações decorrentes da filiação.
Decisões do STF (RE 898060) e do STJ reconhecem expressamente a multiparentalidade como realidade jurídica válida, desde que respeitados os princípios da afetividade, da dignidade da pessoa humana e do melhor interesse da criança. A coexistência visa não excluir, mas incluir laços afetivos significativos na rede de proteção familiar da criança ou adolescente.
Quais documentos e provas são exigidos para o reconhecimento formal da filiação socioafetiva?
Para o reconhecimento formal da parentalidade socioafetiva, seja judicial ou extrajudicialmente, são exigidos documentos que comprovem a existência do vínculo afetivo e da posse do estado de filho. Entre os principais, destacam-se:
- Declarações das partes interessadas (pai/mãe e filho);
- Provas documentais de convivência (certidões, contratos, fotos, registros escolares);
- Testemunhas que confirmem a relação de afeto e cuidado contínuo;
- Documentos que demonstrem dependência econômica ou cuidados prestados;
- Relatórios psicossociais (quando exigidos pela Vara de Família).
O reconhecimento extrajudicial deve ser realizado diretamente em cartório, com a anuência expressa de todos os envolvidos e do Ministério Público, nos casos de menores de idade.
O que é mais relevante para a Justiça: o vínculo de sangue ou o vínculo de convivência e cuidado?
Embora o vínculo biológico ainda tenha valor probatório e identitário, o critério prevalente na jurisprudência atual é o vínculo afetivo e de convivência. Os tribunais têm reconhecido que o afeto, aliado à posse do estado de filho, é suficiente para legitimar a parentalidade, mesmo na ausência de material genético compartilhado.
A adoção desse entendimento busca proteger a criança contra rupturas afetivas injustificadas, bem como garantir segurança jurídica à relação construída ao longo da vida.
Como o princípio do melhor interesse da criança orienta os julgamentos sobre multiparentalidade?
O princípio do melhor interesse da criança, previsto no artigo 227 da Constituição Federal, no Estatuto da Criança e do Adolescente (art. 4º) e em tratados internacionais ratificados pelo Brasil, é a base de todo julgamento envolvendo parentalidade.
No contexto da multiparentalidade, esse princípio orienta os magistrados a valorizar os vínculos afetivos que asseguram estabilidade emocional, proteção integral e continuidade do cuidado. Assim, o juiz pode reconhecer juridicamente a figura de um terceiro genitor se tal reconhecimento representar benefícios concretos para o desenvolvimento da criança ou adolescente.
Qual o papel do Ministério Público e da Vara de Família nos processos de reconhecimento socioafetivo?
O Ministério Público atua como fiscal da ordem jurídica, especialmente em procedimentos que envolvem menores ou interesses indisponíveis. Sua intervenção é obrigatória nos casos de reconhecimento judicial da parentalidade socioafetiva, e também na via extrajudicial, quando houver criança ou adolescente envolvido.
Já a Vara de Família é o juízo competente para:
- Processar e julgar ações de reconhecimento de paternidade/maternidade socioafetiva;
- Homologar acordos entre as partes e validar termos de reconhecimento;
- Determinar a expedição de nova certidão de nascimento com inclusão dos genitores reconhecidos;
- Resolver eventuais conflitos com genitores biológicos ou disputas de guarda e alimentos derivadas do reconhecimento.
Em todos os casos, as decisões são fundamentadas em laudos, provas e no respeito ao princípio da proteção integral.
uma filiação baseada no afeto e na dignidade
O reconhecimento da parentalidade socioafetiva e da multiparentalidade representa um avanço civilizatório no Direito de Família brasileiro. Ao valorizar os vínculos de afeto, cuidado e convivência, a jurisprudência e a doutrina afirmam que a família é, antes de tudo, um espaço de proteção e amor, e não apenas uma estrutura biológica.
Para aqueles que desejam reconhecer judicial ou extrajudicialmente a parentalidade socioafetiva, é essencial contar com a orientação de um advogado especializado. A atuação técnica assegura o cumprimento de todos os requisitos legais e garante que os direitos da criança ou adolescente sejam respeitados durante todo o processo.
Na Reis Advocacia, atuamos com sensibilidade, conhecimento técnico e profundo respeito aos vínculos familiares. Se você deseja orientação sobre reconhecimento de parentalidade socioafetiva, multiparentalidade ou direitos da criança, estamos prontos para ajudar.
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Advogada – OAB/PE 48.169
Advogada há mais de 7 anos, pós-graduação em Direito de Família e Sucessões, com destacada atuação na área. Possui especialização em prática de família e sucessões, em Gestão de Escritórios e Departamentos Jurídicos e em Controladoria Jurídica.
Atuou no Ministério Público do Estado de Pernambuco, nas áreas criminal e de família e sucessões, consolidando experiência prática e estratégica. Membro da Comissão de Direito de Família da OAB/PE (2021).
Autora de publicações acadêmicas relevantes sobre unidades familiares e direitos decorrentes de núcleos familiares ilícitos.
Atuou em mais de 789 processos, com foco em agilidade processual e qualidade, com uma expressiva taxa de êxito superior a 92,38%, especialmente em ações de alimentos, pensões, guarda e divórcio.
Atualmente, também é autora de artigos jurídicos no Blog da Reis Advocacia, onde compartilha conteúdos jurídicos atualizados na área de Direito de Família e Sucessões, com foco em auxiliar famílias na resolução de conflitos e em orientar sobre direitos relacionados a alimentos, guarda, pensão e divórcio.